Como eu contei

Na época que descobri que sou soropositivo, eu trabalhava como programador em uma empresa de software e morava sozinho. Quando eu tive o diagnóstico, isso mexeu muito com o meu psicológico, ao ponto de me isolar de tudo e de todos. Fiquei uma semana sem aparecer na empresa, sem atender ao telefone ou a campainha.  Várias pessoas tentaram me contatar, ou batiam na minha porta, mas eu não queria ver ou falar com ninguém. Só queria ficar sozinho, no escuro, eu queria dormir e acordar e ver que tudo não passou de um pesadelo.

Uma semana se passou e eu continuava na mesma, a única coisa que eu fazia era acessar meus e-mails, minha caixa estava lotada de emails! Com pessoas querendo saber por onde eu andava e etc… Eu sumi e não avisei ninguém. Mas teve um e-mail que me chamou atenção por ser do meu chefe na época. Que dizia que se eu não aparecesse no emprego ele ia ser obrigado a declarar abandono de emprego de minha parte.

Resolvi então que eu precisava aparecer pelo menos no trabalho, respondi ao meu chefe que precisaríamos conversar, ele concordou e marcamos na segunda-feira bem cedinho. Passei o final de semana pensando no que ia dizer na empresa, mas depois de muito pensar, decidi que eu ia contar a verdade, que até então, absolutamente ninguém sabia.

Na segunda-feira, bem cedo, meu chefe já estava me esperando na empresa, assim que eu cheguei, fomos pra sala de reuniões. Ele me perguntou o que estava acontecendo, visto que eu não aparecia na empresa há uma semana. Nesse momento retirei da minha pasta o meu exame e mostrei pra ele. Ele leu atentamente, e me disse:

– Agora eu entendo por que você ficou sem aparecer por uma semana.

disse ainda:

– olha, sei que esse é um momento difícil pra você, não consigo imaginar o que você está passando nesse momento, mas saiba que, você é parte do time, e vamos te dar todo o apoio que tu precisar.

Quando ele me disse isso comecei a chorar, aliviado, achei que ele fosse me mandar embora. ele me disse que não entendia nada do assunto, mas me falou que eu deveria procurar uma terapeuta. E que conhecia uma muito boa, até se ofereceu a custear as primeiras sessões. E é claro que aceitei.

Naquele dia passei muito bem, estava aliviado por ter contado na minha empresa e não ter sido mandado embora. Mas ainda não estava preparado para contar para mais ninguém. Pra minha melhor amiga, que me ligava insistentemente para saber o que havia acontecido, inventei uma desculpa qualquer para o meu sumiço. Somente após a terapia que eu comecei a fazer e depois de muita conversa com minha terapeuta eu decidi contar para os meus amigos, mas contei pra poucos por que achava que, no momento que eu contasse, iriam me virar as costas. Mas não foi o que ocorreu, as pessoas para quem eu contei primeiramente, na verdade se mostraram preocupadas mas nunca me deram as costas.

A FAMÍLIA

Contar para a família foi algo bem complicado, eu ficava pensando, como vou dar uma notícia dessas?? Meus pais iriam achar (assim como eu achei) que eu ia morrer na outra semana!! Com isso em mente, eu resolvi que só ia contar quando eu já estivesse em tratamento e minha imunidade estivesse estabilizada.

Após alguns meses de tratamento. Perguntei para o meu médico se eu podia levar os meus pais no consultório dele para que ele explicasse o que é o HIV e mostrasse pra eles (assim como ele mostrou pra mim) que existe sim vida após o HIV e que hoje em dia isso não é mais uma sentença de morte. Ele me disse que eu poderia levar os meus pais no consultório dele com certeza. Uns dias antes da consulta com o infectologista eu resolvi ter uma conversa com meus pais para contar e preparar eles. Não ia e não poderia fazer isso com eles, dar uma notícia dessas de surpresa. Resolvi que ia contar antes e em seguidas levar eles ao meu médico!

Naquele dia, fui para a casa dos meus pais e eles já estavam me esperando, na noite anterior eu havia ligado pra eles dizendo que eu precisava conversar com eles. Então, quando cheguei lá, eles já estavam me esperando curiosos. Não sabia como ia dar uma notícia dessas e resolvi ser direto. Falei que eles precisariam ser fortes por que eu tinha más notícias pra eles. Contei que estava doente e minha mãe logo achou que era câncer! 🙂

Falei pra eles que eu tinha me descoberto soropositivo. Acho que eles ficaram sem reação frente à noticia que eu tinha dado pra eles, antes mesmo deles esboçarem qualquer reação, eu falei que já estava em tratamento e que o médico já havia me tranquilizado que eu não ia morrer na semana que vem e que isso não era mais uma sentença de morte. Falei também que eu tinha consulta no outro dia e queria que eles me acompanhassem na consulta para que o médico pudesse tranquilizar eles da mesma forma que ele me tranquilizou. Eles até que reagiram melhor do que eu esperava, choraram um pouco mas eu acho do fato de eu já estar me tratando e estar disposto a levar eles na minha consulta, de alguma forma, deixou eles mais tranquilos. Meus pais foram na minha consulta comigo e lá ele explicou tudo que ele já havia me explicado antes, meus pais (assim como eu estava logo que descobri a doença) estavam cheios de dúvidas e puderam peguntar diretamente pra ele. Meu médico foi muito legal, falou que sim é muito difícil conviver com o HIV, que agora eu ia ter que ter uma vida mais regrada. Mas, que dá pra ter uma vida longa e de qualidade se eu seguisse o tratamento direitinho. Tirou todas as dúvidas do meu pais e ainda falou que eu estava bem e em tratamento, que tudo estava bem dadas às circunstâncias. Senti que meus pais estavam mais aliviados ao sair do consultório médico (assim como eu me senti a primeira vez que saí de lá).

Resumindo, a experiência que eu tive de contar para outras pessoas e na empresa foi melhor do que eu esperava, na empresa eu tive o apoio do meu chefe e em casa o da minha família e amigos próximos.  Mas apesar de eu ter contado e para os meus pais e amigos mais próximos. Só em 2013 (dez anos depois) que eu fui me aceitar, somente depois que eu fui parar no hospital por conta daquela infeliz ideia de parar com os medicamentos por conta própria. Essa história em conto aqui em um post onde conto como foi a experiência de contar para todos os meus amigos assim que saí do hospital.

Fique ligado.

Autor do Post Jeff

Eu sou o Jeff! Muito prazer! Sou soropositivo há 15 anos. Levou bastante tempo até eu aceitar essa minha nova condição e realidade, e depois de alguns percalços da vida eu levo uma vida boa e feliz! Criei esse blog para tentar te mostrar, que a vida é muito maior do que um mísero vírus e que não podemos fazer nossa vida girar em torno disso.

7 Comentários em “Como eu contei

    Garoto bom ( 26/04/2016 - 10:49 AM )

    você é corajoso. Como havia dito no comentario anterior apenas meu namorado ( não soropositivo) q até então era o unico q sabe da realidade contei recentemente a uma grande amiga que estamos sempre juntos, foi lindo pq contei meio emocionado depois de uma discursão com meu namorado por problemas de casais ai disse a ela q me sentia só, então durante uma descontração num barzinho apois algumas cervejas e risos disse pra ela q por sua vez reagiu tão natural e ainda brigou comigo pq nao contei antes e ainda me pediu um beijo na boca pra provar p mim q nao teria rejeição ou nojo como eu ainda acho q alguns teria. Sobre o alivio, to me sentindo cada dia melhor, mas ate agora parou por aqui nao quero mais contar pra ninguem a respeito disso, muito menos pra minha familia o preconceito seria gigantesco meus pais ja idosos e de uma certa forma com aquele pensamento dificil de mudar meus irmãos então q ja foi dificil aceitar minha homosexulalidade imagina isso?! mas estou bem, estou ótimo pra quem descobriu a 4 anos e esta a 4 meses q iniciou o tratamento to sabendo conviver bem com isso…

      Viver com HIV ( 26/04/2016 - 1:28 PM )

      Olá Garoto Bom,

      Realmente contar a alguém, para quem quer que seja, é muito difícil, a gente nunca pode imaginar a reação da pessoa que está ouvindo aquilo que estamos contando pra ela. Contar para alguém é libertador e trás um alivio sim! Dito isso, saiba que só tu é quem vai saber a hora de contar, para quem vai contar e se vai contar. Não se sinta pressionado em relação a isso. Se um dia tu sentir a necessidade de contar a alguém, essa necessidade, vai vir naturalmente.

      Um abraço

    Carlos deuschle ( 16/04/2016 - 8:11 PM )

    Descobri em uma internação para toxoplasmose tive a sensação que não duraria alguns meses,me fechei para o mundo os ditos amigos sumiram mas aos poucos soube como lidar com a situação é isto é desde o ano de 2004

    Laura ( 18/11/2015 - 3:11 AM )

    Vc é uma pessoa incrível … Sério !! Estou lendo todo seu blog rs Parabéns mais
    uma vez , por compartilhar com a gente soropositivo ou negativo a sua história de superação, é uma lição de vida para todos ! Fazer o bem sem olhar a quem !

      vivercomHIV ( 18/11/2015 - 3:36 AM )

      Nossa! É muito bom receber um comentário desses! Me faz ver que estou no caminho certo de orientar e ajudar. Muito obrigado pelas palavras e pelo carinnho! Ah e muito obrigado por seguir meu blog! Todo o domingo tem uma nova publicação aqui! Seja muito bem vinda! 🙂

      Abração

    Jucilane ( 15/04/2015 - 7:11 AM )

    Te amamos de qualquer jeito… POSITIVO OU NEGATIVO
    E mais… sentimos muito orgulho de você.

      viver com HIV ( 15/04/2015 - 10:55 AM )

      Obrigado Laine, É muito bom saber que tenho na minha vida pessoas como tu e tua família. Sei que posso contar com vocês sempre, e isso faz toda a diferença nessa batalha que realmente não é fácil. Faz toda a experiência ser mais leve. Também sou muito orgulhoso de você! Obrigado por fazer parte da minha vida!

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